E num belo dia, consenti. Cartas na mesa. Nesse belo dia alguém disse: Sim, é aquilo que vem do mundo, de ti e de si próprio, que fisga, rompe superfícies. Tuas pernas declaram independência. Teus pensamentos somem, provavelmente exilados nas pernas. E dessa mistura de pensamentos e pernas começa a subir um calor. É titânico, uma força que põe o ser em brasa. Quando vês, abaixo de ti só nuvens. Abaixo delas o oceano pulsante. Alguém disse: Beije-me. Cubra-me contigo. Como pode surgir tal coisa? São bocas que se beijam ou já é o beijo que se usa das bocas para ser? Os lábios criam raízes que vão até o fundo do fundo de não sei o quê, onde a luz da consciência mal chega, e tudo são relvas mornas num dia de chuva com sol. O sol se põe, vem a névoa fria. O sol nasce, a névoa vai embora. E quanto mais espessa a névoa, mais forte o sol para fumegá-la. São aditivos, o frio e o sol, mas até um certo momento só. Pare de dar de comer ao teu sol e tudo empalidece. Mas não te preocupes, tudo empalidecerá da mesma forma, quando teus ossos estiverem muito frágeis para carregar esse lombo pesado que arrastas a todo canto. Alguém disse: Entretanto, se trazes o oceano vivo dentro de ti, então nada minguará. Passe urucum por toda a pele do corpo, acenda uma fogueira no centro dessa avenida sinistra e dance à própria força. Homenageie teus ombros fortes, de guerreiro, que te trouxeram até aqui. Até agora. Até mim. Eu não sabia se virias, mas desde o começo confiei em ti. Soprei tuas velas, um pouco forte demais às vezes, e devo-te alguns mastros arruinados e um certo número de metros de cordame, mas aqui estás! Dançando pintado de vermelho aos meus pés.

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