Rua Augusta. Duas e meia da manhã de sexta, mas ainda estávamos no espírito de quinta, os néons rubros um pouco dilatados devido ao álcool. Eu e um amigo descíamos a rua repleta de pessoas à procura de sexo e entorpecimento, quando topamos com um grupo à porta do Eclético’s Bar. Uma das moças, uma asiática acima do peso vestida como uma punk, estava desmaiada na calçada. As outras tentavam auxiliá-la na medida em que a embriaguez permitia. Uma delas, um pouco mais baixa que eu, cabelos curtos e artificialmente ruivos, olhos verdes e apagados, minissaia e jaqueta de couro, parecia achar a situação um real enfado. O jeito como ela segurava uma long neck chamou-me a atenção. Mais parecia ter na mão um membro fálico. Tal tipo certamente não é raro por estas bandas da Cidade, pensei. Chovem garotas de programa, das mais baratas às que só cedem seus dotes femininos a portadores de carros alemães. Chuta-se uma árvore, caem umas três delas. Além do quê, não é preciso ser uma prostituta para gostar bastante de transar caras. Incontáveis moçoilas diurnas, que nos escritórios, farmácias e bibliotecas passam relativamente desapercebidas; quando a noite vem, se produzem, passam batons em cores vívidas, aumentam o salto e diminuem a saia. Transmutam-se nas filhas da noite, que tanta inveja dão ao Universo – se este as pudesse ver como um sujeito do conhecimento – ao atingir em suas aventuras aqueles níveis de prazer, independência e realização da vontade disputados pelas criaturas viventes em todos os níveis de energia. Sim, de fato nessa hora o mundo ajoelha-se a seus pés. Se depois lhes vem o vazio, e a este segue-se a melancolia, o tédio e, finalmente, o desespero, isto é algo a que todos nós estamos sujeitos. Segurava uma long neck como quem segura um falo. Olhou-me com esperanças de sair daquela situação embaraçosa e estorvante. “Parece que sua amiga não está bem.” “Ela não sabe o que faz.” Breve silêncio. “Como você se chama?” “Débora.” “Prazer, Pedro; este é meu amigo Guilh…” “Tem algo branco no meu nariz?” A esta pergunta um leve sobressalto percorreu minhas espessas sobrancelhas, como se alguém houvesse aberto uma porta, e uma corrente de vento, daquelas de que pode-se quase sentir a eletricidade estática, inundasse o ambiente, trazendo uma poeira vinda de longe, de lá detrás de alguma Patagônia, repleta de possibilidades enevoadas, ainda que alvas e cálidas. “Não, você está bem.”

 

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